
E passam-se as estações. Foi-se o outono, com suas árvores tingidas de vermelho, profusões de folhas pelo chão, dias curtos, noites longas e um friozinho anunciando o inverno, inverno que chegou rigoroso, trazendo mais gelo para um coração já petrificado depois de sua ausência. Um frio que tinge de branco a relva, nas noites de solidão em que suas lembranças são como fantasmas, a assombrar-me a alma. Uma lareira crepitante a um canto, pinta de dourado uma sala escura, projetando nas paredes imagens fantasmagóricas. Uma taça de vinho me faz companhia, acordes de uma triste melodia ecoa pelo ambiente, e trazem a minha memória, os momentos vividos com você, e uma dor cortante vai trespassando minha alma, numa certeza angustiante de que foram só momentos, nada mais que momentos. Fito as chamas, como se pudesse ver nas labaredas que sobem, o seu rosto, ou sentir no calor que emana desse fogo, o aconchego dos seus braços quando me abraçavam. Simulo um abraço com meus próprios braços, me encolho no tapete, e fico assim imóvel, e um frio que fogo nenhum aquece invade o meu corpo. Preciso de você, e essa dependência me angustia. Queria-te dispensável, descartável, algo para ser usado e jogado fora, uma noite de aventura e nada mais. Não assim, invadindo-me, ocupando espaços, destruindo todas as minhas resistências, abalando minhas estruturas, crescendo dentro de mim como uma planta parasita, sugando todas as minhas energias. Tuas lembranças são assim, queimando-me, ardendo em minhas entranhas, como as brasas que vão ficando na lareira. Sorvo mais um gole de vinho, troco a música, atiço o fogo, volto a fechar os olhos, sinto o calor que vem da lareira, e de novo me vejo invadida por essas recordações que queria ver reduzidas a cinzas, lembranças que transformam meu coração numa geleira glacial.
*Texto escrito em 29/06/2010.
*Texto escrito em 29/06/2010.

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